O Relógio e a Rosa
....Relógio alto. De pêndulo. Por apertos de espaço,
colocaram-no próximo da janela que dava para o jardim. Manhã de Maio,
uma rosa se abriu. Húmidas as pétalas recortaram no ar o brilho amêndoa, a pureza
e a ternura dos mais belos olhos do Mundo. Da janela o relógio olhou-a e parou.
Deram-1he corda e parou. O relojoeiro veio e parado continuou. A meia noite,
um poeta disfarçado de ave nocturna, entrou na caixa do relógio e descobriu
que ele estava enfeitiçado: Um êxtase de contemplação pura.
....E até hoje, segundo consta, nenhum conserto
o tirou da sua contemplação.
A Paixão do Urso
....Jovem mulher casada,
ia a caminho da aldeia vizinha da sua, no coração da floresta, a duas verstas
do lago Baikal, o Mar Siberiano. Sentido contrario, vinha um urso não menos
jovem. O pelo denunciava-lhe a idade. De repente, a duas canchas, ambos se
quedaram. Olhos nos olhos, assim ficaram um tempo que ninguém soube, nem os
génios da floresta. Quando ela caiu em si, um frio correu-lhe pela espinha
e, tremula, ainda ganhou forças para voltar a casa. Gritou pelo marido que
logo se apressou a carregar a arma de longo cano. Refeito o ânimo, foram
encontrar o urso no mesmo sítio. Morto. O coração matou-o. De paixão.
Ele não merecia a desconfiança da jovem.
....Foram as bétulas, as noivas dos bosques,
que o disseram entre lágrimas.
O Mineiro e o Diamante
....Mineiro pobre e viúvo.
....De volta do turno da noite, ao descalçar
as botas, encontrou, em uma delas, um pequeno diamante. Tão breve no tamanho
que alembrava a mais pequena das estrelas na escuridão da noite. Não se conteve.
Chamou a filha. E no azul dos olhos dela viu o pequeno diamante mais crescido
que a estrela, que a estrela de alva. De repente, mergulhou a cabeça entre
as mãos e pensou: Entregá-lo à empresa das minas? Não. Ninguém devolve
uma estrela. Sobretudo, uma estrela que fugiu da Via-Láctea e na bota de um
mineiro se escondeu.
Viagem Marginal
....Um eléctrico ou um boi! Quem ama não tolera que o desmintam. Era um boi: unicórnio, amarelo, pesado, chocalhante. E tinha e tem, na testa, o primeiro número dos números. Seu ofício e destino é viajar, ida e volta, rente às águas do rio, sua foz e praias marinhas até ao porto. Seu corpo longo cheira a neblina e a sal. Nele, vamos os dois. Romance antes de ser escrito. Ela possui o mistério das rosas com seus roxos acúleos: não fala, prende. E o poeta que há em mim, ilumina-se, arde. Meus olhos vestem-na de uma auréola e ao tocarem nas coisas em torno dela, as coisas mudam. São outras as árvores, outras as águas, outros os barcos. E a voz. E as palavras. E os silêncios. Como no milagre bíblico, multiplicam-se nos olhos dela, os pães e os peixes da ternura. Há momentos em que o amor volta a ser criança. Tímida ou alucinada de vida. Sonhando com gavetas proibidas, corredores subterrâneos, tesouros escondidos.
Belisa
....Só mais tarde descobri
a sua paixão. Belisa ama a noite. Um amor ágil. Enquanto os demais se enclausuram
e dormem, Belisa (livre) viaja noite adentro pela cidade de mármore que dá
pelo nome de Lisboa. Viaja a pé, marginal do tempo, despida de medo, indiferente
passa ou responde aos vultos suspeitos que rompem das esquinas a pedirem-lhe
as horas que são. Viajar com ela, através das ruas, ruelas e becos do burgo
antigo, é construir labirintos mais estranhos e reais que os do sonho.
....No Inverno, veste comprido casaco vermelho
para incendiar o espectro dos lampiões públicos.
....Com ela, subindo e descendo, montamos animais
de fábula, recrutados nas sombras, malhados de tons roxos e azuis translúcidos
a correr das paredes e muros.
....Com ela, respiramos a intimidade das casas,
mais espessa pela magreza estreita das ruas. Quase ouvimos o mergulho do sono
e o rumor dos sonhos em torno. E, como Florbela, o coração das pedras a bater.
E à medida que a noite cresce, Belisa ressuscita em nós os versos e os mitos
pagãos. Telhados arriba, no seu movimento, são rebanhos de cabras vagueando
nas encostas de Guilead. Apetece cantar, murmurando, todo o cântico dos cânticos.
Numa arvore de tábuas, andaime lhe chamam, a Lua pousou muito branca. Era
a asa do cisne (metamorfose do Deus dos deuses) colhendo, na sua astúcia,
a virgindade de Leda. Há nessas horas, em Belisa, uma singular alquimia de
linguagem. As palavras em vez de aflorarem, voltam-se para dentro e transmudam-se
em silêncio. Um silêncio que é o tecido audível das palavras improferidas.
Como num poema.
....Belisa durante o dia assemelha-se a certas
divindades orientais pelo número de braços que do corpo irradiam. No seu caso,
um braço para as lides da casa, outro para o oficio e os demais para os imprevistos.
....À noite (nem sempre) recolhe todos os braços,
funde-os num só e hasteia a sua flâmula, o seu grito surdo de guerra. Contra
o peso e as agressões diurnas.
....Para ela, todas as coisas tem seu mistério,
e a noite é o mistério de todas as coisas. Tal como o mistério da poesia.
Talvez sem o saber, outro poeta o disse, antes e depois da morte: Lorca, o
bruxo.
....Por isso, viajar à noite com ela,
é descobrir o lado oculto ou torná-lo mais oculto para que a descoberta
seja maior.
....É voar entre as asas de uma ave nocturna.
Baikal, e a Sua Filha, Angará
....Outrora o poderoso
Baikal, mar siberiano, era alegre e bom. Amava muito sua filha única, Angará.
Não havia ninguém mais formoso que ela sobre a Terra. De dia era clara - mais
clara que o dia. De noite, escura - mais escura que as nuvens. E todos os
que paravam à volta dela, admiravam-na, glorificando-a. Até as aves viageiras:
os gansos, os cisnes e os grous baixavam para vê-la e, ao rés da agua, sem
tocá-la, diziam:
- Acaso se pode turvar o puro?
....O velho Baikal cuidava de sua filha mais
que as meninas de seus olhos. Um dia quando ele caiu de sono profundo, Angará
fugiu com o jovem Enisey. Mal espertado ainda, Baikal, furioso, sacudiu as
ondas. Alevantou-se, então, uma terrível tempestade: soluçavam as montanhas,
caíam os bosques, o céu escureceu de mágoa. E os animais assustados
tresmalharam-se por toda a terra. E os peixes mergulharam no fundo do mar.
E os pássaros levantaram seu voo para o Sol. Apenas o vento uivava. Baikal
descarregando, entre relâmpagos, o punho na velha montanha, arrancou-1he pedra
negra e lançou-a atrás de sua filha que fugia. A pedra alcançou a jovem pelo
colo. Angará sufocada e gemendo, implorou: - Pai, morro de sede. Dá-me, ao
menos, uma gota de água! Colérico, gritou Baikal: - Não tenho senão
lágrimas para te dar!... Há milhares de anos, Angará corre, precipitando-se
no Enisey. E são lágrimas as suas águas.
Lenda siberiana do lago Baikal colhida oralmente
do castelhano, através da guia Marina, nas margens do lago, em 1979.
Na Ilha dos Amores
....Coração das aguas
densas. O sal, como escamas, brilha ao rés da pele. Baixas as águas. Ao inclinar
o Sol, vestem-se de translúcida cor. Verde. De pedra preciosa. Com elas trocam
esmeraldas. À medida que os braços, as mãos se mexiam, deslizavam, tocavam,
descobriam, apertavam cada vez mais os corpos que, numa vertigem, buscavam
passar-se através um do outro. Lábios e línguas: uma luta acesa e sôfrega
de peixes, como seu sangue frio substituído fosse pelo ardor ígneo das erupções
submarinas. E as águas densas alevantavam os corpos e preparavam, baloiçando,
a cama do amor. Oblíqua. Era a hora da libertação. Inteiramente nus. Algas
finas e serpeantes afloram do seu púbis. Improvisam uma dança de acenos e
apelos. Sob as algas, os pequenos e grandes lábios de seu sexo abriam e fechavam,
ritmo crescente, as duas conchas bivalves. Imaginou-lhe o nácar e seu mistério
húmido. Do vértice das pernas dele há muito que rompia uma anémona do mar.
Erecta, longa, cilíndrica. Na coralínea cabeça uma nebulosa de sémen. E, de
repente, a visita: penetrante. Funda. Tremores de terra no subsolo dos sentidos.
Depois, movimentos que inspiraram os êmbolos. Feixe de gemidos surdos, ofegantes,
sincopados. Faúlhas de palavras que ardiam. Rota ou quase transparente a sandália
dos lábios. E o máximo: grito espesso, de raiz, por entre os dentes cerrados
que o tornam dúctil como o ouro e duro como os diamantes negros.
....Uns, chamam-1he amor.
....Outros, desespero.
Amanhã Principio
....Só a "louca da casa"
sabe de metamorfoses. Esta noite sonhei com as minhas mãos: Ávidas aves voando
em busca dos teus seios. E logo as aves se transmudaram em esponjas marinhas
que, à volta dos teus seios, lhes absorvem a tessitura das formas ondeadas,
o submerso azul de finíssimas veias, toda a secreta rede de hemisférios sensíveis.
Teus seios transmigraram: habitam o solo das minhas mãos. Para onde eu for,
eles irão comigo. Vão como os perfumes na sua essência maior, como os venenos
mais mortíferos. Por isso, abro as mãos e não os vejo, ninguém de ninguém
os vê. Sinto-os apenas - inteiros e puros. Minhas mãos já não podem tocar
nas coisas, levantar seja o que for, receiam magoá-los, feri-los, vê-los
com nódoas negras. Minhas mãos já não podem tocar em nada. Têm medo.
....Amanhã, principio a estudar o método de escrever com os dentes.
Repertório baseado
no "Livro da Paixão" editado em 1986
"Livro da Paixão, foi a última obra publicada em
vida do poeta, retoma a linha discursiva sob o modo assumidamente narrativo.
As oito breves histórias encantadas «para ler e contar»,
entre o alegórico e a descrição imaginosa, nascem embebidas
no líquido passional e figuram a paixão trágica de seres
exóticos que se revêm no espelho mítico das suas diferenças
radicais."
Luís Adriano Carlos
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